Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Assim começa

a mentira.
Porque é tudo nublado e parece, a meio da sombra, existir um sorriso.
Mas é falso. É tudo falso.
Nem tu tens rosto, quanto mais coração.
Eu conto-te os sonhos e tu roubas-me as esperanças.
É assim, simples: não se pode acreditar em bonecos.

Dragspelhust / Casa acordeão



A casa expansível fica na reserva natural de Glaskogen...
Este é um exemplo da Suécia do Peter, que prefere... Paris!

Levemente

Leve

Tem de haver justiça.
Seja ela poética ou de outro género qualquer; tem de haver.
Não é possível que se faça mal impunemente.
Não é imaginável o império da ignomínia e da safadez.
Os biltres, os insolentes, os covardes, os falsos, os ímpios, têm de prestar contas.
Não é de desforra que se trata.
É mera equidade.
É o mínimo.
E não repara.
Nada.

Circuito da Boavista


Domingo, 5 de Julho de 2009

De facto...


"(...) Há um preço a pagar pelo conhecimento demasiado íntimo de uma coisa que nos fascina e repugna, uma coisa que nos interpela e ignora, que ao mesmo tempo impele e limita: VPV é essa mescla, esse híbrido, esse sincretismo valorativo, demasiado humano – salvo no talento. A lê-lo, chegamos a acreditar que o amor intelectual é a forma mais rematada de desespero – até que a ironia retoma os seus direitos. Invejável."


O Jansenista

“A vida não é a feijões, tem de haver escolhas”


O Teu Deserto é quase um diário de viagem, é quase um romance de amor, é quase uma carta que se tornou grande demais, é quase um tributo de amizade, é quase autobiográfico. O que é um romance de amor? Isso é vago… O livro pode ser lido de muitas maneiras. (…)”
“ (…) Atravessei um deserto com ela, atravessámos a vida um do outro rapidamente. (…) e, de repente, comecei a achar que tinha saudades, que lhe devia uma espécie de diário de bordo. (…) Este livro arranca com a carta que lhe escrevo. «Tu morres, e eu escrevo. Ficamos de contas saldadas.» (…)”
“ (…) É um livro de exposição absoluta. Achei que só fazia sentido assim. Chega-se a um ponto da vida em que as coisas boas que ficaram para trás são muito marcantes, e nós percebemos que a única maneira de não as sepultar de vez é trazê-las à superfície. (…)”
“ (…) já não vou ao deserto há nove anos. (…) As pessoas, hoje, «vão ao deserto», passeiam pelo sul da Tunísia e pouco mais. São incapazes de enfrentar a solidão. É por isso que vivem em redes sociais, virtualmente acompanhadas.
É o oposto dessa viagem em que o que é preciso é encontrarmo-nos só connosco, com meia dúzia de pessoas que são capazes de estar caladas durante cinco horas. Quem é que, hoje, é capaz de estar rodeado de pessoas e calado tantas horas? Ninguém. O silêncio dá medo, atordoa. (…)”

Miguel Sousa Tavares
Entrevista ‘Pisar o risco’
Visão # 852

Sábado, 4 de Julho de 2009

Feliz Aniversário

Hurrah!

To all my friends and family back in the States.
Love and miss you all very much.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009


"Assustamo-nos com mais frequência do que nos magoamos; e sofremos mais na imaginação do que na realidade."


Séneca (4aC-65dC)

Já chega

de indignação.
Querem o quê?
Leiam isto e mudem de agulha.

Belgais nunca mais


Isto é uma vergonha.
renunciar à nacionalidade’?
Por despeito para com um governo (ou sucessivos) porque não lhe fizeram as vontades?
A Pátria está acima dessas coisas e os compatriotas também deveriam estar.
Podia mudar-se para a Cochinchina e, até, não mais cá voltar, mas renunciar a ser portuguesa?
Triste.

Síndrome azul



Noite linda



“Maestro Azevedo!”, chamou o garboso José Cura.
E eu ainda a rir-me de te ter respondido se o que querias que visse na RTP era o Horta Osório…
Fico sempre muito orgulhosa ao ver-te actuar, sabendo-te tão inspirado, tão 'musical', desde sempre…
Logo que tenhas saudades do Javali do ‘Abadia’, conta comigo para despachar o esparregado, que morro de saudades de ti.
E falando em coisas estupendas, não podia deixar de referir a magnífica entrevista concedida por António Horta Osório ao mesmo canal, antes desta Gala emocionante.
Uma noite linda, de facto.

(não para um ex.ministro, nem para o Governo, o Parlamento ou o País, mas cada vez menos me apetece falar de coisas tristes e há por aí bem mais quem o faça - e muito melhor - do que eu)

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Lei


“(…) o sentido mais profundo da amizade entre homens é precisamente o altruísmo, o facto de não querermos o sacrifício do outro, nem ternura, não querermos nada, apenas manter o acordo de uma aliança silenciosa. (…)

“ (…) a amizade não é um estado de espírito ideal.
A amizade é uma lei humana rigorosa. (…)”

«As velas ardem até ao fim»

Sándor Márai

O que eu gosto deste filme...



Ich bin einem New Yorker!





"Nunca a palavra é excesso se soubermos o valor do silêncio."


Helena Sacadura Cabral

Amor com Amor se paga

Cinema memória (XV) - búúúú à hegemonia ianque!


Hoje nem era bem este - formidável, absolutamente a (re)ver! -, mas o David foi telepático e mencionou um dos meus 'must'...

'mergulho onde o rosto aguarda o princípio e o fim de um incêndio esperado'

"O que é anterior às coisas está na alma
para prevalecer. Não é só uma questão
da memória, um sulco a atravessar
esse travejamento sombrio e cintilante, talvez
tudo tenha apenas a ver com o silêncio,
o silêncio agudo que sobe ao ouvido
e faz vibrar o corpo num êxtase imperceptível,
o instante de beleza que transita na pele
e desce à boca para afirmar e interrogar.
Há também a sala, com os seus cantos inóspitos,
os diademas translúcidos que as aranhas teceram,
o epicentro de um cismo neste lado do fogo,
onde a prega de um lenço revela a sombra
indescritível. São indícios de formas, sinais,
grãos finíssimos de areia púrpura que flutuam
no ar, um traço oblíquo de luz que une a nuca
às mãos, a tristeza, a perdurável tristeza
de quem passou pela vida nesse motor regressivo,
essa turbina que tocou outras vidas à volta,
outras almas que se perderam porque alguém ocultou
sob a pedra o fascínio e o arrebatamento de uma escuna branca
que secretamente aguarda o momento de zarpar
à descoberta de algum mar na terra, alguma estrela
de água. Ah, a lágrima, também a lágrima
há-de ser um desses indizíveis detalhes
que marcam o rosto, ferve nos lábios
quando o coração se concentra sobre o peito, num ritmo
onde tudo acontece como num filme lento de cores
saturadas, o ocre do mundo a diluir as recordações
porque sempre se institui algum abandono nessa forma sublime
de amar, prudente e imprudente, sob a gardénia azul e a aveleira intensíssima.
Um rio espraia-se ante o olhar coberto de escuridão,
as mãos abrem-se e afeiçoam as lâminas
que sulcam a carne, o sangue mistura-se nessa amálgama
de espaços brilhantes e fitas coloridas, um ramo de violetas
cresce sobre esse nevão, além de um limite e outro,
onde as forças há muito diluíram as dúvidas
que por um simples contacto com a realidade desabam por essa bátega
ardente, imaculados clarões que mancharam os dedos
e sabemos juntar ao que jamais esperamos, uma asa,
uma porção de éter, um golpe no céu para que alguém
acredite nos anjos, para sempre acredite. O universo expande-se
em múltiplas alusões a esses arcos antigos, a cabeça quase não as suporta,
há um juízo inteligível que nos toca para que nada se possa entender,
tudo se possa entender,
de um mistério a outro os dedos tocam esse pó reversível
que adere aos olhos e arde num rastro de pura energia que o despojamento
calcina, uma criança preenche com a claridade
envolvente, serpente e predestinação
aproximando-se do frágil ponto de luz
que desoculta o visível, sortilégio, volume, ascensão,
suporte onde todos os sedimentos
se reúnem, todas as tentativas de destruição
se transfiguram. E mais que visão, casa, mais que memória, índice,
mergulho onde o rosto aguarda o princípio e o fim de um incêndio esperado,
essa forma soberba de comunicar o amor, implacável, eterno,
fulcro e ressonância a transitar pelo tempo,
medida e desmedida, meticuloso alvoroço impondo ao firmamento
um círculo, uma trama, um desenho de luzes."

ROGÉRIO RIBEIRO: COMPANHIA DOS ANJOS

Desenho de Luzes

Amigos de Azertyuiop/ 1997

Up side down...



... é como me sinto, a maior parte das vezes.

Talvez tenha continuação...




Caro António..., depois daquele aperitivo, o condicional perturba os espíritos curiosos.
Não vou intimá-lo a dar continuação, mas que tal começarmos um romance?
Entre A.P. e A. H., of course!

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

A vida é (estupidamente) curta

Passo a vida a murmurar ‘a minha vida não é isto! ‘, mas, na verdade, é.
Isto, ou vender flores no Bolhão.
Ou então, deslizar pelas Avenidas Novas e parar no "Vává" dos meus pais; fotografar incessantemente o Bairro Alto dos meus avós ‘lisboetas’.
E também andar de eléctrico onde ainda é possível.
Além de percorrer o resto do país amado, de Trás-os-Montes ao Alentejo profundo.
Com passagem pelo Algarve contrafeito e – finalmente – um pulo às ignotas ilhas polvilhadas no atlântico azul-esverdeado.
As coisas boas só são – realmente - se partilhadas.
Como não subscrever isto?
Isto sou eu; assim é a minha Lisboa.
E este (‘love is a better word’), o princípio que defendo até ao fim.
...
Ainda bem que há por aí outros.
Daqueles a quem nem é preciso dizer nada.
Só encostar ao peito e sonhar.

… eu cá diria: LOVE IS A BETTER WORLD.
(Não concordas?)

Feroz adepta da palavra, descortino que recorro compulsivamente à imagem, logo eu, que nem sei operar uma simples máquina digital além do absolutamente básico.
Talvez por excesso a dizer, mostro.
Desejos, sensações, verdades, volúpias, medos.
Digam outros as palavras escondidas.
Revelem-me, quero dizer.

Real beautiful people

(por nobre indução da minha Milady)

I love you

Adoro o que ela escreve. Pronto, fica aqui a declaração.

Badly needing your kiss *



A imprudência - e outras coisas que nem vale a pena referir - provoca isso: qualquer desculpa é boa para celebrar e fazê-lo é com espumante, Porto e similares.
Sucede que tal, a horas de expediente, provoca hilariantes episódios, piadas loucas e inesperadas partilhas de alma com quem nunca pensaríamos trocar mais do que ‘bom-dia’
Não é mau, considerando que, afinal, passamos grande parte da vida no trabalho e, mal ou bem, quem nos rodeia todo o ano se transforma numa espécie de família.
Ultrapassada a barreira do p.c. com dois ou três copos de qualquer coisa alcoólica, ‘anything goes’. Por assim dizer.
Por isso declaro, já farta de sublimar: se estivesses agora aqui, não escapavas.
E isto não é para ti, nem para ti, nem para ti.
É para ti.
Sim, tu, raios...

* - isto não sou eu, são os vivas-aos-noivos sucessivos...

Affairs of the heart (of business)

É curial repor a verdade dos factos: nada de ‘marca branca’.
Porto com duas diuturnidades, olaré!
Celebrámos o casamento no próximo sábado de um par da casa.
Talvez não inédito, mas seguramente imprevisível.
Entre o marejar de olhos (eu sou uma tola emotiva) e o trincar de lábios (a falta de paixão é atroz), permanece uma pergunta: sou eu que estou errada, ou é o mundo à minha volta?
Uma coisa é certa: os copos foram de plástico.
E o futuro a Deus pertence.

Quer S.Pedro queira ou não, é Verão!







Lista de prioridades desassisadas:
'colírio', saldos, doçuras e cartas...

«bewildering totality»


E se olharmos para as coisas sob outra perspectiva?
E se as inquirirmos?
E se imaginássemos respostas?
A arquitectura sábia é aquela que refresca o olhar.
A literatura tem esqueleto.
E o resto.

Enquanto bebo um Kir Royal

Sustentos


Vem isto na linha de uma certa ideia - ou sensação - de megalomania do isolamento.
Há dias também agradeci isto em foro privado - sob o mesmo tristinho título -, e acabo a repeti-lo por aqui em múltiplas metáforas a tutti quanti.
Os dias sucedem-se estrangulados; se não as comezinhas idiotias da vida pessoal, os dramas incomensuráveis dos outros que, vejamos bem, sim, têm infinitas razões para anoitecerem e eu, eu que resmungo porque tenho insónias, não.
Não?
Depende do ângulo.
E da coragem.

I need you ...

(clicar para ampliar)

«Escreve na areia as faltas do teu amigo.»

Pitágoras

Da dança

O melhor Baz Luhrmann!
Qual 'Moulin Rouge', qual 'Australia'!
Vibrante e inspirador.
Um 'must' absoluto.

Gente simples e os Teckel


(apaixonante pedigree...)


A disponibilidade” – diria mais tarde o judoca - “admiro imenso a disponibilidade física dos bailarinos…; invejo-os”.
E sim, invejava-os nas horas rodopiadas em movimentos de artes marciais, caindo ora como felino, ora como pedra, à bruta, com estrondo, a ponto de se partir por dentro.
Ficávamos a vê-los a voar - ele com desmedida admiração, eu apenas com leigo deslumbre -enquanto recordava que em tempos o violinista fora promessa de Nureyev, antes da lesão que o convertera em músico.
Nos idos de Lisboa, esperava o fim dos ensaios no estúdio de Armando Jorge e depois trocava vagas impressões com Igor Ivanoff , que agradeceria a atenção presenteando a primeira Teckel da família, Babushka.
A música foi-se enleando no meu percurso por artísticas mãos e permitiu-me – nunca soube uma nota ou reproduzir um pio – acompanhar a beleza das artes performativas.
A minha mãe pronunciava Bernhardt e o meu pai repetia Fonteyn.
E eu, pouco dada a fisicismos próprios, fui descobrindo a discórdia e a harmonia da vida transposta para o palco, coisa subtil, em líricas metamorfoses discretas, mimetikós de sonhos e pesadelos.
Ontem levantou voo em direcção a algures, Bausch.
Talvez encontre a minha Babushka.
Ela também gostava de dançar.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

“Atrás de uma montanha alta está outra mais alta”


Um dia vi-te a beijá-la.
Não seria bem assim, mas não importa.
Corri, porque o relógio mandava e porque não podia ver mais.
Coisas de pudor; um recato mínimo necessário, mesmo que fossem vocês a invadir espaço público e não eu o vosso universo privado.
Vacilei entre o júbilo pela felicidade alheia e a inveja por não ter a mesma sorte.
Sou assim, muito ambivalente.
Agora arrastas os braços desertos e não sei se hei-de lamentar essa ausência ensombrada, ou confortar-te por esse semblante pungente.
O amor é sempre grandioso; até no ocaso.
Em tempo entenderás.

Imaginar pensamentos




Maria João Freitas

O CANTO DE UMA BAILARINA

O sol gira na minha cabeça
Sou uma palmeira que arde.
E danço, danço,
à espera da chuva do amor.

A lua gira na minha cabeça.
Sou o silêncio e a noite.
E danço, danço,
embalsamando-me de felicidade
com o perfume do teu corpo.

tu és a chama e eu sou o fumo.
Tu és a água e eu sou o fogo.
Tu és a faca e eu sou o fruto.

Dou-te o ouro da minha pele,
as pérolas dos meus dentes,
os dois rubis dos meus seios,
os diamantes esguios dos meus olhos.
Em troca, apenas te peço
que te lembres de mim.


ANÓNIMO ÁRABE (Séc. X)
"O Jardim das Carícias"
Trad.: Fernando Ilharco Morgado
- Farândola, 1995-

Revisão da matéria amada

Loa ao país livre


Um espaço perfeito que consente a convivência anedótica entre o mau carácter militante e a tolerância extrema.
Por outras palavras: quando não gosto de algo, evito-o; não chafurdo nisso para vituperar covardemente quem pensa de forma distinta da minha.
E é tudo o que tenho a dizer.
O que é muito mais do que muito helminto merece.

You made me love them (but it's sic)

Ser completamente


Eugénia de Vasconcellos

Ler tudo não é sugestão. É imperativo.
Fino diapasão da essência do ser ou o lirismo do rigor.

Um mergulho a qualquer hora

(e esta é a luz da alma)

Um mergulho às 23:29

(e este é o sol da meia-noite)

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

"Pessoal e intransmissível..."

... é uma boa forma de se ligar o semáforo no encarnado.
Na verdade (como eu entendo...) "de boas intenções está o inferno cheio".
Clichés?
Fazem parte da vida, não é?
Olha: 'felicidades para os viveres'.
Boa frase, sincera e um nadinha amarga, que pertence a uma inesquecível dedicatória com décadas num livro qualquer oferecido por uma ex. a um ex.
A vida é complicada, caraças...

“Greta Garbo no Irajá!” (II)


‘Health Club’ altaneiro avisa por sms: “dois meses de suspensão do SPA para ‘manutenção’ “.(Agradecem a ‘compreensão’…)
Hã?! Instalações inauguradas há um ano e já a necessitar de dois-meses-dois de ‘manutenção’!?
E na mensalidade?
Haverá desconto proporcional à fatia de putativas benesses que ficam agora sem efeito durante quase nove semanas?
É o há!

“Greta Garbo no Irajá!” (I)

Um par da casa onde labuto decide casar.
Aguarda-se com emoção o brinde com um Porto de marca branca em copinhos de café de plástico...

O Aston Martin e as 'muchachas'


Mais quatro meses de entulho



"Evitar confusões

Sábado, 27 de Junho


O Presidente da República acedeu aos pedidos de quatro dos cinco partidos e separou as datas das eleições legislativas e autárquicas. Para o PS, a separação exigia-se em nome da "clareza democrática", da "verdade democrática" e do "rigor das escolhas". O Bloco também referiu a "clareza democrática" e, com menor clareza, a "partidarização do efeito de contaminação". Para o PCP, marcar as eleições em simultâneo desvalorizaria ambas. Para o CDS, trata-se de "duas campanhas que não devem ser misturadas". Falando em nome próprio, o dr. Mário Soares resumiu: seria "uma confusão para os eleitores".

É interessante notar que as rebuscadas mesuras dedicadas pela classe política à democracia não se estendem aos cidadãos que a compõem e justificam. Se os partidos acham sagradas as instituições democráticas, tomam a população por um vastíssimo bando de tontos, incapaz de perceber a diferença entre os deputados da nação e os caciques da província. Muitas vezes, concedo, a distinção é difícil, para não dizer impossível, mas esse não é o ponto. O ponto é que, de acordo com os argumentos ouvidos por Cavaco Silva, a simultaneidade de "legislativas" e "autárquicas" arriscaria convencer alguns eleitores da Gafanha da Nazaré de que os autarcas indígenas ambicionavam formar Governo e o eng. Sócrates decidira tentar uma carreira na junta de freguesia lá da terra.

Pior que tudo, os partidos não se limitam a insultar as pessoas: torturam-nas sem piedade. Eleições afastadas significam campanhas prolongadas, ou seja, semanas e semanas de arruaças, perdão, arruadas e barulho em geral. A factura que isto representa no bolso dos contribuintes é realmente o mal menor: a respectiva sanidade mental é que não promete recuperação.

Entretanto, resta consolarmo-nos com a certeza de que teremos tempo para alcançar a complexidade dos programas nacionais e locais, que os profundos debates a realizar nas duas instâncias serão esclarecedores e que os transeuntes distinguirão perfeitamente entre o candidato a S. Bento que lhes oferece dois beijinhos e um porta-chaves e o candidato à câmara que, quinze dias depois, lhes oferece dois beijinhos e uma esferográfica."

Alberto Gonçalves
DN

Àquele que gosta de coisas antigas e boas

Toda a inocência será castigada

Não sei porque o vi antes de dormir.
Agora, é claro, não durmo.
Ando há anos sem conseguir ver A Lista de Schindler e O Pianista.
Nem pegar no Les Bienveillantes consigo, e não é seguramente pelo peso do livro.
Este chamou-me. Com uma voz muito segura e suave. E vi-o há pouco.
...às vezes quase entendo os negacionistas.
Tudo isto - e o mais que nunca saberemos - é demasiado hediondo para se acreditar.
Defendem-se como podem, esses tristes.
E depois de nos angustiarmos e soluçarmos e nos rebelarmos contra factos gravados nas histórias dos povos há décadas, caímos em nós e percebemos que hoje, agora, noutros lugares, outros seres vivem cenários medonhos tal-qual.
Tal-qual.
E nós, tão cheios da nossa vidinha serena, também o negamos, de alguma maneira.

Domingo, 28 de Junho de 2009

As palavras têm outra casca
Lá mais para dentro
Como as amêndoas
E a paciência.

Giánnis Ritsos
1974
A tua carne calma
Presente não tem ser,
Os meus desejos são cansaços.
Quem querem ter nos braços
É a ideia de te ter.

Fernando Pessoa
in
Poesias Inéditas