29/12/07

Amor líquido

Há semanas, apareceu uma reedição portuguesa dos Fragmentos de um Discurso Amoroso (1977), de Roland Barthes, belissima reivindicação romântica das linguagens do amor, contra o cinismo e a psicanálise. Agora, saiu a tradução do muito mais recente (e mais pessimista) Liquid Love, do sociólogo de origem polaca Zygmunt Bauman (n. 1925). Amor Líquido, de 2003, é um ensaio (como diz o subtítulo) Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Fez-me especial impressão reler (conhecia a edição inglesa) uma passagem do primeiro capítulo, que se chama «Apaixonar-se e desapaixonar-se».Bauman fala da escolha amorosa («amorosa» no sentido lato) como uma forma de parentesco voluntário; mas não esconde que há uma sombra nessa escolha, que é a nostalgia do momento inicial, as condições adversas da sociedade em que vivemos, e a impossibilidade trágica que recai sobre as emoções estáveis.Cito: «A afinidade nasce da escolha e nunca se corta esse cordão umbilical, e a menos que a escolha seja reafirmada diariamente e novas acções continuem a ser empreendidas para a confirmar, a afinidade vai definhando, murchando e deteriorando-se até se desintegrar. A intenção de manter a afinidade viva e saudável prevê uma luta diária e uma vigilância sem descanso. Para nós, os habitantes deste líquido mundo moderno que detesta tudo o que é sólido e durável, tudo que não se ajusta ao uso instantâneo nem permite que se ponha fim ao esforço, tal perspectiva supera toda a capacidade e vontade de negociação».A «luta diária» e a «vigilância sem descanso» talvez não sejam conceitos muito sociológicos. Mas são conceitos muito adequados. Que às vezes nos dominam. E que outras vezes, tristemente, nos abandonam.

PEDRO MEXIA
Blogue 'Estado civil', já recomendado antes.

28/12/07

Os sóis, as luas e a passagem dos anos

Contaram-se os sóis e as luas e os astros nas rugas submergentes dos nossos rostos. E em cada poro microscópico de cada uma das nossas rugas transborda um pensamento, uma emoção, um sorriso, uma tristeza, um abraço ou uma lágrima... Diz-se ordem natural da passagem dos anos e diz-se viver e diz-se ter vida e diz-se ter vivido. Mas contaram-se os sóis e as luas e os astros nas rugas submergentes dos nossos rostos. E nada mudou. Diz-se ordem natural da passagem dos anos. Não mudei. Diz-se viver. Não mudaste. Diz-se ter vida. A mesma amargura sentida. Diz-se ter vivido. Mas foi um só momento. O momento parado de ter-te abraçado, enquanto, à nossa volta, se contaram os sóis e as luas e os astros nas rugas submergentes dos nossos rostos.

Ao meu adoptante

Sonnet XLIII


How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of every day’s
Most quiet need, by sun and candlelight.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise
I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood’s faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints, - I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life! – and, if God choose,
I shall but love thee better after death.


Elizabeth Barrett Browning
(1806-1861)
in
Sonnets from the Portuguese

25/12/07

Da felicidade

“É, pois, desejável sermos susceptíveis de sentir paixões e repito ainda: não está ao alcance de qualquer um.
Cabe-nos a nós servirmo-nos delas para a nossa felicidade, e isso depende muitas vezes de nós. Quem quer que tenha sabido economizar tão bem a sua condição e as circunstâncias em que fortuna o colocou, a ponto de ter conseguido colocar o seu espírito e o seu coração numa disposição tranquila, que seja susceptível de experimentar todos os sentimentos, todas as sensações agradáveis que este estado comportar, é seguramente um excelente filósofo e deve, na verdade, agradecer à natureza.
Digo a sua condição e a situação em que a fortuna o colocou, porque creio que uma das coisas que mais contribuem para a felicidade consiste em contentarmo-nos com a nossa condição e em preocuparmo-nos mais em torná-la feliz do que em modificá-la.”


Madame Emilie du Châtelet
- Discours sur le bonheur –
Séc. XVIII

Nada é impossível mudar

"Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.

E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural

nada deve parecer impossível de mudar."

Bertold Brecht

Memories from Neverland.

Ainda, há pouco tempo quando dizia que andava com muito trabalho para a faculdade, e com pouco tempo para trabalhar na minha criatividade, alguém me disse para publicar um extracto desses trabalhos.
Ora, a visita à Terra do Nunca, e a Peter Pan, tornou-se mais produtiva do que, se calhar, imaginaria.
Assim, deixo aqui alguns extractos, do script que tive que criar, a partir de um capitulo de Peter Pan. Estas falas têm base nas originais do livro, mas com algumas adições engraçadas a estas. Espero que gostem. Feliz Natal!

[the song was interrupted by a screeching and a crowing sound that came from the cabin] What was that?

Slightly: Two.

[Cecco hesitates for a moment and then swings into the cabin]

Hook: [to Cecco who’s tottering out of the cabin, haggard] What’s the matter with Bill Jukes, you dog?

Cecco: [in a hollow voice] The matter wi’ him is he kicked the bucket.

Hook: [looking confused] What do you mean he kicked the bucket? I didn’t hear any bucket being kicked.

Cecco: [gibbering] I mean he kicked the bucket as in done for this world, gone, deceased, DEAD! Stabbed!

(...)

Hook: [irritated] ‘Sdeath and odds fish. Who is to bring me that doodle-doo?

Starkey: Wait till Cecco comes out

Hook: [purring his claw again] I think I heard you a volunteer, Starkey.

Starkey: No, by thunder!

Hook: My hook thinks you did. [he leans his head against his hook, as if the hook was talking to him; he talks to the hook] What’s that? [he turns to Starkey] See? He said to me that you’ve just volunteered. [he makes a sarcastic smile; he walks around Starkey] Are you questioning the hook? He has feelings, you know? And when his feelings get hurt he doesn’t quite react well [he puts his hook against Starkey’s face gazing him viciously] My hook is very emotional, you know?

(...)

[The pirates look in panic]

Hook: Calm down lads! [the pirates are looking viciously at him] Lads, I’ve thought it out. There’s a Jonah aboard.

Pirate: [angrily] Ay, don’t try to full us. There’s no one named Jonah here. What do we have here is man wi’ a hook and his name is…is…[trying to remember the captain’s name] His name is Hook.

Also true...

As palavras têm outra casca
Lá mais para dentro
Como as amêndoas
E a paciência.

Giánnis Ritsos
1974

True

A thousand words will not leave so deep an impression as one deed.


Henrik Ibsen

24/12/07

Natal Burton

Stain Boy's Special Christmas
For Christmas, Stain Boy got a new uniform.
It was clean and well pressed,
comfy and warm.

But in few short minutes,
(no longer than ten)

those wet, greasy stains
started forming again.
daqui
Bom Natal a todos.

A little spoonful of Chicken Soup for the Soul

At different stages in our lives, the signs of love may vary: dependence, attraction, contentment, worry, loyalty, grief, but at heart the source is always the same.
Human beings have the rare capacity to connect to each other, against all odds.

- Michael Dorris -

Sol de Natal


23/12/07

Ao Mestre

O poeta é um pintor do mundo invisível.
Eu sou um mar que em fogo ferve.
Habito as ruínas de mim mesma.
Frágil como um cabelo.


Tisana 460

Ana Hatherly

Ao profeta das desgraças

Era uma vez duas entidades que jogavam uma espécie de xadrez com a luz apagada embora não fosse de dia.
Era um jogo tão completo que nenhum dos participantes tinha as pedras de modo que o jogo consistia na descoberta tacteante das peças que o constituíam.

Tisana 71
Ana Hatherly

21/12/07

Natal Burton

James
Unwisely, Santa offered a teddy bear to James, unaware that
he had been mauled by a grizzly earlier that year

(vá, é o penúltimo Natal Burton que coloco, depois mudo de temática)

Isso é que era um Natal real...

(…)Não nasças! Nada temos que te dar:
Mirrada a mirra, o oiro gasto
E o incenso apenas a incensar
O ladrão que roubou o rebanho e o pasto.(...)

Excerto de um poema dedicado a Manuel Maria Múrias
António Manuel Couto Viana,
Nado Nada (1977)



Sublime, aqui

Inspiração


Há um ano e um mês estava aqui...
Não é lindo? Inspirem-se :)

Also sprach Zaratustra

It was Christmas Eve babe
In the drunk tank
An old man said to me, won't see another one
And then he sang a song
The Rare Old Mountain Dew
I turned my face away
And dreamed about you


Got on a lucky one
Came in eighteen to one
I've got a feeling
This year's for me and you
So happy Christmas
I love you baby
I can see a better time
When all our dreams come true

They've got cars big as bars
They've got rivers of gold
But the wind goes right through you
It's no place for the old
When you first took my hand
On a cold Christmas Eve
You promised me
Broadway was waiting for me

You were handsome
You were pretty
Queen of New York City
When the band finished playing
They howled out for more
Sinatra was swinging,
All the drunks they were singing
We kissed on a corner
Then danced through the night

The boys of the NYPD choir
Were singing "Galway Bay"
And the bells were ringing out
For Christmas day

You're a bum
You're a punk
You're an old slut on a junk
Lying there almost dead on a drip in that bed
You scumbag, you maggot
You cheap lousy faggot
Happy Christmas your arse
I pray God it's our last

I could have been someone
Well so could anyone
You took my dreams from me
When I first found you
I kept them with me babe
I put them with my own
Can't make it all alone
I've built my dreams around you




copyright 1988 Shane MacGowan & Jem Finer

The Pogues



Prezado e propalado num Ashram perto de nós : revista 'Sábado' de 20/12/07, crónica 'Juízo Final', do inigualável Alberto Gonçalves


E porque o Youtube não está colaborante desde ontem, podem ir ver o vídeo porque aqui não dá...

non esistire...

Ho sbagliato tante volte ormai che lo so già
che oggi quasi certamente
sto sbagliando su di te ma una volta in più
che cosa può cambiare nella vita mia...
accettare questo strano appuntamento
è stata una pazzia!
Sono triste tra la gente
che mi sta passando accanto
ma la nostalgia di rivedere te
è forte più del pianto:
questo sole accende sul mio volto
un segno di speranza.
Sto aspettando quando ad un tratto
ti vedrò spuntare in lontananza!
Amore, fai presto, io non resisto...
se tu non arrivi non esisto
non esisto, non esisto...
e cambiato il tempo e sta piovendo
ma resto ad aspettare
non m'importa cosa il mondo può pensare
io non me ne voglio andare.
io mi guardo dentro e mi domando
ma non sento niente;
sono solo un resto di speranza
perduta tra la gente.
Amore è già tardi e non resisto...
se tu non arrivi non esisto
non esisto, non esisto...
luci, macchine, vetrine, strade
tutto quanto si confonde nella mente
la mia ombra si è stancata di seguirmi
il giorno muore lentamente.
Non mi resta che tornare a casa mia
alla mia triste vita
questa vita che volevo dare a te
l' hai sbriciolata tra le dita.
Amore perdono ma non resisto...
adesso per sempre non esisto
non esisto, non esisto...

Ornella Vanoni -L' appuntamento
B. Lauzi - Erasmo Carlos - Roberto Carlos
(1970)

19/12/07

To Patrick, and the NY girl of his dreams...



Não há noite como esta. Ou sonho. Conte quem viu...

Uma crónica adiada.

INVOCO A DEUSA EM TI…

Óleo nos membros,
talvez um cheiro rançoso
como aqui no moinho de azeite
da pequena igreja
nos poros grossos
da pedra parada.

Óleo nos cabelos
coroados de corda,
talvez com outros perfumes também
que não conhecemos
pobres e ricos
e pequeninas estátuas nos dedos
oferecendo seios pequenos.

Óleo no sol;
assustaram-se as folhas
quando o estrangeiro parou
e ficou pesado o silencio
entre os joelhos
Caíram as moedas;
“Invoco a deusa em ti…”

Óleo nos ombros
E na cintura que vergam
Tornozelos pardos na relva,
E esta ferida no sol
Enquanto tocavam vésperas
Enquanto eu falava no adro
Com um gebo.

De: Diário de Bordo, III

Yorgos Seferis

Trad.:Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis

You don't know what love is


You don't know what love is pelos The White Stripes

Natal Burton

Stick Boy's Festive Season
Stick Boy noticed that his Christmas tree looked healthier
than he did.

18/12/07

Felizes...

"Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá, guiando-se pelo instinto dos gatos, que buscam o sol quando há sol, e quando não há sol o calor, onde quer que esteja. Feliz quem abdica da sua personalidade pela imaginação, e se deleita na contemplação das vidas alheias, vivendo, não todas as impressões, mas o espectáculo externo de todas as impressões. Feliz, por fim, esse que abdica de tudo, e a quem, porque abdicou de tudo, nada pode ser tirado nem diminuído. "

Bernardo Soares
"Livro do Desassossego"

Sorte (em duas palavras)

Apaixonada, morreu.

17/12/07

Desgraça, em dez palavras. (em duas versões)

Sonhara que voara. Quando caiu do quinto andar, não sonhou.

Sonhara que voava. Caiu do quinto andar, não sonhou mais.

Um (anti-)conto de fadas, em dez palavras.

Era uma vez um príncipe que não encontrou princesa. Fim.

12:51


12:51 pelos The Strokes.

NY girl of his dreams

Viu a rapariga dos sonhos dele no metro de Nova Iorque, e criou um site para a encontrar...
... e quem diria, encontrou mesmo!
E avisa que não vai actualizar mais o site, que cada um invente o final que quiser para a história. (cliquem nas imagens para aumentar)
visto aqui

Natal Burton

The Boy with Nails in his Eyes

The Boy with Nails in his Eyes
put up his aluminium tree.
It looked pretty strange
because he couldn't really see.

16/12/07


(…)” basta ver os meus olhos
nada sabemos de nós a não ser que chegámos
sem uma luz a esconder-nos o rosto
belos e apavorados de estranhos casacos vestidos
altos de meter medo às aves de longo curso

nem há noites assim não há encontros
ao longo das enseadas

não há corpos amantes não há luzeiros de astros
sob tanto silêncio tão duradoura treva

e não me fales nunca eu sou surdo ou não te oiço
eu vou nascer feliz numa cidade futura
eu sei atravessar as fronteiras das coisas
olha para as minhas mãos que te pareço agora
?”(…)

O Jovem mágico – Mário Cesariny

15/12/07

Simon & Garfunkel


O meu pai apresentou-me Simon e Garfunkel quando eu tinha 14-15 anos e eu não lhes liguei nenhuma. Encontrei-os muito tempo depois numa caixa no escritório misturados com outros CD's. Lembrava-me vagamente de o ter visto comprar o The Essential deles e fui perguntar-lhe se podia pô-los a tocar.
A primeira vez que os ouvi, The Sound of Silence, Bye Bye Love, Bleeker Street, não me disseram nada. Cheguei à Scarborough Fair e lembro-me de comentar com a minha irmã que gostava daquela música, com um entusiasmo aguado, mas ouvi o álbum todo uma vez, e depois aquela música o resto da tarde. Demorou muito tempo até me aventurar pelas outras, Punky's Dilemma, The Boxer, At the Zoo. Entretanto passou o Verão e nunca mais deixei de os ouvir. Eles criaram o seu próprio espaço dentro de mim, mais ou menos como quando alguém se muda para a nossa casa e encontra uso para um canto que nunca nos tinha ocorrido. De vez em quando fico sem os ouvir por um tempo, e de vez em quando regresso a eles, como as estações da lua, e é como regressar a um lugar de onde partimos e descobrir que nada mudou - que tudo está à nossa espera e nos recebe numa constância tranquila e segura.

Estive a pensar bastante tempo que música deles haveria de pôr aqui. Algumas gosto por causa da letra e outras por causa da música. A Blessed é horrível em acústico, mas espectacular no álbum original, de 1966, e com outras é o contrário.

Esta é A Poem On The Underground Wall, de 1966. Queria que a lessem por causa de como eles descrevem as coisas, os olhos, o coração dele, o túnel do metro como ventre de pedra, é muito fixe. (A propósito, não sei qual é a four letter word do poema) =)

The last train is nearly due
The underground is closing soon
And in the dark deserted station
Restless in anticipation
A man waits in the shadows

His restless eyes leap and scratch
At all that they can touch or catch
And hidden deep within his pocket
Safe within its silent socket
He holds a colored crayon

Now from the tunnel's stony womb
The carriage rides to meet the groom
And opens wide with welcome doors
But he hesitates, then withdraws
Deeper in the shadows

And the train is gone suddenly
On wheels clicking silently
Like a gently tapping litany
And he holds his crayon rosary
Tighter in his hand

Now from his pocket quick he flashes
The crayon on the wall he slashes
Deep upon the advertising
A single worded poem comprised
Of four letters

And his heart is laughing, screaming, pounding
The poem across the tracks rebounding
Shadowed by the exit light
His legs take their ascending flight
To seek the breast of darkness and be suckled by the night

14/12/07

13/12/07

Pedro Sena-Lino (maestro dos caminhos das nossas palavras)

xxxi.

poeta quer dizer profeta
e tu desculpa-me pascoaes ave estelar
que os dias são fantasmas sem sentido
e as noites sem palavra que as cubra

in
Biofagia

A de Dezembro também se recomenda. Muito.

(…)” A escrita não responde a nenhuma pergunta. Só traz mais perguntas. E começamos a escrever do zero uma e outra vez. Acho que é por isso que as pessoas continuam a escrever, porque nunca se chega a lado nenhum. Achamos que estamos a chegar a algum lado e depois percebemos que estamos onde começámos. E começamos de novo, e tentamos mais uma vez. E continuamos a falhar. É como o Beckett diz.”falhar melhor”.”(…)

Extracto da entrevista do Pedro Mexia ao Paul Auster, na revista Atlântico de Novembro.

Branco


Only one...

"I am only one.
But still, I am one.
I cannot do everything,
but still I can do something.
And because I cannot
do everything, I will
not refuse to do the
something that I can do."

- Edward Everett Hale -

Kaya & Ingrid


Cartas de Amor

Votre silence me fait mal.
Je ne vous accuse point ; mais je souffre, et j’ai peine à me persuader qu’avec un intérêt égal à celui qui m’anime, je fusse un mois sans entendre parler de vous ; mais, mon Dieu! dites-moi, quel prix mettez-vous donc à l’amitié, si le mouvement vous en sépare tout à fait ? Ah! Que vous êtes heureux !
Un roi, un empereur, des troupes, des camps, vous font oublier ce qui vous aime, et (ce qui est peut-être plus près encore d’une âme sensible) les personnes que votre amitié soutien et console.
Non, je ne vous cherche point de tort, et je voudrais même que votre oubli ne m’en parût pas un ; je voudrais trouver en moi la disposition qui fait tout approuver ou tout souffrir sans se plaindre.
Voilà ma cinquième lettre sans réponse ; je vous demande combien il y a de personnes avec qui vous feriez de pareilles avances.
Je ne sais pourquoi je m’étais persuadée que je recevrais de vos nouvelles de Breslau, soit que vous reçussiez la lettre que je vous y ai adressée, soit qu’elle fût perdue ; mais mon espérance a été trompée.
Oh ! je vous hais de me faire connaître l’espérance, la crainte, la peine, le plaisir : je n’avais pas besoin de tous ces mouvements, que ne me laissiez-vous en repos ? mon âme n’avait pas besoin d’aimer ; elle était remplie d’un sentiment tendre, profond, partagé, répondu, mais douloureux cependant ; et c’est ce mouvement qui m’a approchée de vous : vous ne deviez que me plaire, et vous m’avez touchée ; en me consolant, vous m’avez attachée à vous et, ce qu’il y a de bien singulier, c’est que le bien que vous m’avez fait, que j’ai reçu sans y donner mon consentement, loin de me rendre facile et souple, comme le sont les gens qui reçoivent grâce, semble, au contraire, m’avoir acquis le droit d’être exigeante sur votre amitié.
Vous qui voyez de haut et qui voyez profondément, dites-moi si c’est là le mouvement d’une âme ingrate, ou peut-être trop sensible : ce que vous me direz, je le croirai.
Si je voulais, ou plutôt si je n’étais pas inquiète et mécontente de votre silence, je vous ferais une querelle, que vous entendriez à merveille, à laquelle vous répondriez avec plaisir, et votre justification serait sans doute un nouveau crime ; mais vous êtes si loin, vous êtes si pressé, si occupé, et pire que cela, enivré ! ce mot me venge ; mais il ne me contente pas.
Revenez donc : je vois le temps s’écouler avec un plaisir que je ne puis exprimer.
On dit que le passé n’est rien, pour moi, j’en suis accablée, c’est justement parce que j’ai beaucoup souffert, qu’il m’est affreux de souffrir encore.
Mais, mon Dieu ! il y a de la folie à me promettre quelque douceur , quelque consolation de votre amitié : vous avez acquis tant d’idées nouvelles ; votre âme a été agitée de tant de sentiments divers, qu’il ne restera pas trace de l’impression que vous aviez reçue par mon malheur et ma confiance.
Eh bien ! venez toujours ; j’en jugerai et je verrai clair : car l’illusion n’est point à l’usage des malheureux ; d’ailleurs vous avez autant de franchise que j’ai de vérité ; nous ne nous tromperons pas un moment ; venez donc, et ne rapportez pas de votre voyage l’impression de tristesse que le chevalier a apportée d’Italie.
Il parle de tout ce qu’il a vu sans plaisir, et tout ce qu’il voit ne lui en fait pas davantage ; en un mot, je ne changerais pas ma disposition contre la sienne, et cependant je passe ma vie dans les convulsions de la crainte et de la douleur ; mais aussi, ce que j’attends, ce que je désire, ce que j’obtiens, ce qu’on me donne, a un tel prix pour mon âme !
Je vis, j’existe si fort, qu’il y a des moments où je me surprends à aimer à la folie jusqu’à mon malheur.
Voyez si, en effet, je n’y dois pas tenir, s’il ne doit pas m’être cher : il est cause que je vous connais, que je vous aime, que peut-être j’en aurai un ami de plus ; car vous me le dites : si j’avais été calme, raisonnable, froide, rien de tout cela ne serait arrivé.
Je végéterais avec toutes les femmes qui jouent de l’éventail, en causant du jugement de M. de Morangiez, et de l’entrée de Mme la comtesse de Provence à Paris.
Oui, je le répète : je préfère mon malheur à tout ce que les gents du monde appellent bonheur ou plaisir ; j’en mourrai peut-être, mais cela vaut mieux que de n’avoir jamais vécu.
M’entendez-vous ? êtes-vous à mon ton ? auriez-vous oublié que vous avez été aussi malade et plus heureux que moi ?
Adieu ; je ne sais comment cela se fait : je ne voulais vous écrire que quatre lignes et mon plaisir m’a entraînée.
Combien y a-t-il de personnes que vous avez plus de plaisir à revoir que moi ?
Je m’en vais vous en donner la liste. - Mme de ***, le chevalier d’Aguesseau, le comte de Broglie, le prince de Beauveau, M de Rochambeau, etc, etc, etc, Mmes de Beauveau, de Boufflers, de Rochambeau, de Martinville, etc, etc, et puis le chevalier de Chatelux, et puis moi, enfin, et à la fin.
Eh bien ! voyez la différence ; je n’en nommerai qu’un contre vos dix, mais le cœur ne se conduit pas d’après la justice : il est despote et absolu.
Je vous le pardonne ; mais revenez.


Julie de Lespinasse,
(1732-1776)

Au comte de Guibert
Lundi, 6 septembre, 1773



(Les plus belles lettres d’Amour, Anthologie; Madeleine Chapsal – Éditions Albin Michel S.A., 1998)

A thought

(…)” shame and discrimination are lethal weapons” (…)


- "A educação de Max Bickford”, com o Richard Dreyfuss e a Marcia Gay Harden -série pretérita na 2... -

A um amor (seguramente)

É de uma riqueza de detalhes e intensidade de emoções estonteante.
Os sentimentos tornam-se espessos, encorpados, quase palpáveis.
Tomam espaço entre as coisas.
Tornam-se, também eles, coisas.
Fortes.
Como estátuas de bronze.

As palavras transfiguram-se em arcos retesados e as frases são flechas vertiginosas e agudas.
Certeiras.
Discorrer sobre o que quer que seja, é construir um castelo inteiro.
Mas essa fortaleza esconde fragilidades imensas, profundíssimas.
Cruéis.

E para contrariar a meteorologia...

Taça New York


Ingredientes:


100 g de gelado tutti-frutti
100 g de galado de pistácio
1/2 chávena de chantilly
1 cálice de Pisang Ambon
2 canudinhos de bolacha
Amêndoas
filadas
Cerejinha verde

Modo de preparação:


1º- coloque previamente a taça onde vai servir o gelado no frigorífico.
2º- na hora de servir, disponha os gelados na taça e decore com chantilly.
3º- regue com Pisang Ambon e complete com os canudinhos de bolacha, amêndoas filadas e cerejinha verde. Sirva de imediato.

(sobremesa do 'Coq au Vin' do Pedro Sena-Lino, "servido" ontem no Clube Literário do Porto...)

11/12/07

Sondheim por Raul Esparza (copiado sim, mas com muito amor, Wolfie)

secundum artem

Aqui, não sendo novo, é-o. Vede. Aprendei. Espalhai a palavra.

(porque não se deve dar importância às notícias - nem ao nosso coração -)

Look at this ocean with everyone drowning, idiots
Screaming and everyone sinking in slowly
We’re surrounded
In the yellow lights of the city,
Wasted as bodies, in bed with somebody
A touch away with nothing to do
We’re surrounded

I’m really dying in here
I’m really dying in here
And I’m afraid – no I’m scared

She started freezing lungs all collapsing
The momentum is passing
But the moment is eating us whole
We’re surrounded
Put the guns in the water, they’re turning to vodka
Triggering nothing were sinking, the sea takes the ship

And I’m really dying in here
I’m really dying in here
And I’m afraid,
No I’m scared, no I’m scared
I’m just scared
Just let me down

I’m getting really cold and I’m looking at you
You’re not moving
I’m getting really cold and I’m looking at you
You’re not moving
I’m getting really cold and I’m looking at you


And you’re not moving


Ryan Adams
“Love is Hell”, 2003

Um pensamento

Quem anda à procura de inspiração da inspiração deve ter cuidado com a anoxia.

"I can tap dance. Do you wanna see me tap dance?"


Achei por bem mostrar esta cena do belíssimo Garden State.

09/12/07

Um Anjo na Terra

(...)”A noite já desceu sobre o mar de António Nobre – um mar gelado, em imolação constante contra as rochas, num som de fúria e de destino. O mar que o autor de “Só” visitou vezes sem conta para escrever os melhores poemas da sua curta, dramática e graciosa existência humana. Saio do Arquinho e tenho o mar à minha frente. Sinto-me feliz, levemente tocado pela perdição das almas. Vou dormir como um anjo esta noite. Sei. Sinto. Sei que sinto. E então murmuro os versos do poeta – os mais belos que li, os mais belos que me leram. Recordo “O sono do João”. Nem de propósito. Olho para o céu – um céu negro e azulado, como deve ser o céu do paraíso quando anoitece por lá de mansinho – e até parece que estou a ouvir:

O João dorme… (Ò Maria,
Dize àquela cotovia
Que fale mais devagar;
Não vá, o João, acordar…)”


Extracto de “Duas margens”, publicado na revista “A Preguiça”, nº 4, de 01 de Setembro de 2000, suplemento do 'Independente'.

João Pereira Coutinho, obviously.

08/12/07

Primeira letra / único ser (e o inverso)




















poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é o seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Mário Cesariny
-UMA GRANDE RAZÃO, os poemas maiores –
Assírio & Alvim


e neste dia
de sol ausente e mar distante,
o branco nubiloso encarde a soidade como se crivasse poemas inteiros.
(e com eles, a razão)

ancoro as mãos sobre os livros,
evoco as canções e
esboço as conversas que nunca tivemos.
(fantasio todas as que queríamos ter)

brinco com as expressões do teu rosto:
desenho-te uns olhos de musgo,
crio-te um sinal,
contorno os lábios
e traço as linhas do tempo além da pele.
(além do espaço redondo onde nos nascemos)

murmuras segredos.
percebo-te nas mãos quedas os gestos
(pavidamente suspensos)

o teu sorriso desagua nas constelações.

(pressagiar o amor parece tão falaz…)

07/12/07

DA ESPERANÇA, COISA DOIDA.

Hope, they say, deserts us at no period of our existence.

From first to last, and in the face of smarting disillusions, we continue to expect good fortune, better health, and better conduct; and that so confidently, that we judge it needless to deserve them.

I think it improbable that I shall ever write like Shakespeare, conduct an army like Hannibal, or distinguish myself like Marcus Aurelius in the paths of virtue; and yet I have my by-days, hope prompting when I am very ready to believe that I shall combine all these various excellences in my own person, and go marching down to posterity with divine honours.

There is nothing so monstrous but we can believe it of ourselves. About ourselves, about our aspirations and delinquencies, we have dwelt by choice in a delicious vagueness from our boyhood up.

No one will have forgotten Tom Sawyer’s aspiration:”Ah, if he could only die temporarily!” (…)


Robert Louis Stevenson
In
“Virginibus Puerisque and other papers” (1906)

Beautiful

Incontornável. Desfrutem...

05/12/07

[primeiro momento musical: chopin]


(Chopin - Nocturne No. 2 in C# minor)

meu amor
desaparecido em combate de mim mesmo
nas coisas todas saúdo-te
sobretudo nas nocturnas aves que tocaste
ser de angústias ao piano cego de imaginações

vem comigo pelo inacessível dentro
condutor de sonhos e vertigens
por essa casa fora líquida
que paira sob os nossos corpos suave
a água de que nos matamos e nascemos
meu fim eterno e verdadeiro

não temos mãos para tocar
a essa morada onde somos e chegamos
transversalmente nus e demorados
por todas as espécies de embate
mas eu sei aí o teu verdadeiro corpo
um poema em acto de inscrição
correndo para mim como se fonte
ou gume ou apenas a manhã
constatado em materialidade viva

o frio existe quando somos pedra
mas depois a dez mil rostos de distância
tu colocas um verso na minha própria boca
e fazemos amor pela literatura fora
(fomos tão felizes em tantas livrarias
tu corrias comigo imutavelmente nu
comíamos poemas pela mesma boca
e
depois nos vestíamos de latitudes densas
para sabermos pisar o mundo morto)

nunca tivemos pátrias ou mesmo mátrias
apenas sabíamos que éramos o nosso próprio nascimento
e eu amei-te assim instável
quando um piano nos dizia baixo e inexpugnável
um derrame de nunca como real coração

Pedro Sena-Lino
in
biofagia (Quasi, 2003)

04/12/07

From Bert, with love

Devidamente autorizado pelo autor, ditado e traduzido a rogo, por não saber escrever...

(não sei o que andou Harvard a fazer durante mais de uma década, que não percebeu que um dos seus eminentes professores estava em tal estado...)


"Clube Literário? Acho uma ideia óóóóppppptima!

Apenas levantarei um caveat - consta que quase todos os membros do nosso grupo estão altamente atarefados, ultimando obras literárias que irão marcar todo o Séc. XXI. Assim, a Maggie estará a preparar um livro que não só revolucionará a ciência económico-financeira, como tentará provar, finalmente, que a actividade da banca não se opõe à doutrina da Igreja.

Sabem, aquela treta dos juros e agiotagem serem ou não imorais, o que, em tempos idos, remeteu a banca para os não-cristãos, ou seja, na altura, para os judeus.

Enfim, nos círculos mais fundamentalistas da Igreja, fala-se já, com inquietude, na necessidade de restaurar a Santa Inquisição, para punir, exemplarmente, a pecaminosa autora!!!
Por seu lado, os fundamentalistas muçulmanos – para quem o juro bancário constitui agiotagem – estão, também, a agitar-se, ao escutarem os rumores gerados pelo livro com que a Maggie se prepara para abracadabrar o Mundo!
Queimada na fogueira pela Santa Inquisição e/ou perseguida, como o autor dos Versos Satânicos, a Maggie conseguirá, enfim, unir a Igreja e a Irmandade Muçulmana num objectivo comum, numa Nova Cruzada - impedir as blasfémias de tão promissora autora...
Efeitos que decorrerão para o BCP, BPI e demais bancos, nacionais e estrangeiros? Crise nas Bolsas mundiais? O desmoronar do Sistema Financeiro, o regresso a uma economia de troca directa e o fim da Civilização, tal como a conhecemos?
E, nesse contexto, qual será o futuro dos Centros Comerciais?
Questões angustiantes, que nos deixam, a todos, sem ideias e sem rumo...
... e que efeitos teria, tudo isso, no futebol? F.C.P., Sporting, Benfica, Manchester, etc? Como se subornariam os árbitros, políticos, autarcas, eu sei lá??? De arrepiar!
Quanto ao Ricardo, promissor estudante de medicina, correm uns zunzuns de que o seu livro, muito avançado, irá provar que a alma, realmente, existe dentro do corpo humano - mas só nas mulheres!!!
Os homens, infelizmente, serão, tão só, uns seres intermédios, algo situado entre a matéria inerte e os primatas.
Espera-se que tão controverso trabalho irá causar reacções emocionais, violentas, obrigando o novo Galileu a passar à clandestinidade (isto daria um fantástico guião para um filme, com o Ricardo, representado pelo Arnold Schwarzenegger, a liderar uma revolta contra os sub-humanos que dominam a terra, convencidos de que têm uma alma, como as mulheres). Relações, namoros, casamentos,poesia, literatura, eu sei lá, tudo terá de ser revisitado e alterado!!!
Rumores correm, igualmente, acerca dos outros membros do Curso e dos trabalhos acaraçantes (palavra derivada do clássico CARAÇAS, como é óbvio) que estão a produzir e que são aguardados, com expectativa e temor reverencial, pelo mundo literário e cientifico.
Tantas verdades, tantos clarões irão, pois, emergir – e nada voltará a ser igual! Mil Revoluções Francesas e outras tantas Revoluções, ainda por rotular, estão prestes a florir, numa Primavera de Luz.
Como os apóstolos do carpinteiro de Nazaré, os participantes do Curso de Criatividade prestes a propagar pelo Universo novas filosofias, novas religiões – uma nuvem de esperança e um vento de loucura irão, assim, espalhar-se pelo cosmos, á velocidade da luz: E = MC2!!!
Em suma, com tudo isto na forja, não acredito que o encontro no Clube Literário vá ser muito concorrido. E com os 5 minutos de que dispunha, terei de ficar por aqui!

Sempre,
Bert"

01/12/07

Elegia ao marinheiro telúrico

A tua voz
Fala do longe
Através das florestas imensas
Todas as que já existiram
Antes, durante, após os fogos
As guerras, os dilúvios, as prisões.

A tua voz serena
Conta-me os segredos do povo em fuga
Escreve as palavras que bóiam nos olhos
De quem espera
De quem sabe

A tua voz tem cores novas
Pinta o desejado arco-íris
Inunda de luz

A tua voz morde


Aumenta o tempo
Enlouquece a distância
Da tua voz sábia

Volta
Volta

Cantam todos pelo som
Nunca ouvido
Da tua voz

I loved you first

I loved you first: but afterwards your love
Outsoaring mine, sung such a loftier song
As drowned the friendly cooings of my dove.
Which owes the other most? my love was long.
And yours one moment seemed to wax more strong;
I loved and guessed at you, you construed me
And loved me for might or might not be –
Nay, weights and measures do us both a wrong.
For verily love knows not ‘mine’ or ‘thine’;
With separate ‘I’ and ‘thou’ free love has done,
For one is both and both are one in love:
Rich love knows nought of ‘thine that is not mine’;
Both have the strength and both the length thereof,
Both of us, of the love which makes us one.

Christina Rossetti (1830-1894)
In
Love Poems
Barnes & Noble Poetry Library

Nostalgias matinais em tons de azul