A noite passada sonhei com o Cristiano Ronaldo.
Viajávamos numa camioneta de carreira a meio de trabalhadores em fim de jornada, por estradas perto da costa, açoitada por uma tempestade. Anoitecia em tom anil.
Ele usava a fatiota dos jogos e eu devaneava ensonada sobre qualquer coisa melancólica.
Alguns solavancos depois, perto de um colossal edifício alvo, saí.
Havia um mar de amostras de cerâmica pelo chão; peças maravilhosas vogando em cursos de água que uma sombra se afadigava a empurrar com uma vassoura enorme.
O rapaz desaparecera.
Isto porque horas antes, através das courgettes, aboborinhas e demais verduras, treslira de relance na capa de um pasquim que ele andava entusiasmado com a recente casa de dez milhões.
Dezzzzzzmiiiiiiillllhhhhhlhõõõõõõõõeeeeeeeesssssssssssssss...
O que é que poderia ser feito de filantrópico com tal quantia?
A palavra ‘Alcoitão’ - que tanto provoca um sorriso como um arrepio - sobrevém.
Quando imagino (delírio, delírio…) que conquistando o jackpot do jogo semanal me propunha cuidar de idosos e animais desvalidos, percebo que permanece, p.ex., a questão dos incapacitados, transitórios e permanentes.
Dos corações ver da dei ra men te destroçados (as querenças, perto disso, volvem-se cómicas); dessas vidas descontinuadas.
Tanto capital mal direccionado; tanta perda e desperdício.
E quanta dor nessa imensa solidão.
Em tantos absurdos globais.