Leio «A Morte» e estremeço com a similitude do que se aproxima em vivências diárias. Releio parágrafos inteiros e murmuro concordâncias e compreensões. Pacifico-me no português escorreito, na imagética simples, na verdade sem vaidade que ali existe; na importância crescente das questões vitais.
Abraço o livro e a ideia de Deus, para sossegar.
Procuro, enquanto é tempo, recolher resquícios da memória alheia, para rechear a minha. Escrevo-as. Ou espero escrevê-las, enquanto fujo para o sono, embora dos sonhos sobre o cansaço matinal e um vago enjoo pela viagem.
Faço as pazes com os fantasmas.
Mas ninguém parece compreender-me.
Depois, a tarde caída leva-me à procura das palavras dos homens.
Sobressalto-me ao colidir com a neura:
Sobressalto-me ao colidir com a neura:
"Você não pode imaginar como Deus me chateia. Eu não creio nele. Creio realmente numa organização natural que pode tomar o nome de Deus. Esse argumento de que não é possível existir nada sem um poder gerador que seria Deus não resolve, porque então quem criou Deus? Deus gerou o mundo? E quem gerou Deus?
[...]
Não é Deus que é misterioso; é a vida que é misteriosa. Por que nós nascemos? Por que alguém nasceu e gerou outros tantos? Esse mistério não está explicado, e eu me curvo diante dele. Agora, não aceito uma explicação metafísica.
A única coisa de que estou convencido é de que nós morremos de verdade, nós morremos mortos. Nós não revivemos, porque não nenhum exemplo na natureza disso. Essa história de transformação está bem, mas a essência humana desaparece. Se ela se converte em cinza, em adubo, em qualquer coisa, não é mais a essência humana. Vamos convir que o homem não é assim tão importante.
E aí vem o problema da morte. A aceitação da morte é o máximo que o ser pode conseguir para efeito de se ajustar com a vida, de se entender com a natureza. Se todas as coisas são mortais, o homem não pode pretender à imortalidade. Ela me parece uma grande pretensão de sua parte. Com a ideia da imortalidade, ele se consola da sua mortalidade, mas ele não tem nenhuma prova de que exista essa imortalidade."
Transcrição de trechos de Carlos Drummond de Andrade.
Maria Julieta entrevista Carlos.
Entrevista a Maria Julieta Drummond de Andrade. CD.
Rio de Janeiro: Luz da Cidade, 2002.
Por estas e outras é que não me coíbo de continuar a comprar os sapatos de que gosto.
O mais possível, dentro das impossibilidades.

3 comentários:
E faz muito bem! Que eles se estragam depressa lá isso é verdade... mas é bom sinal gastarmos as respectivas solas... revela que andamos (por enquanto) sãos e escorreitos pelos caminhos deste mundo...
Ainda não tive coragem de ler este novo livro da (amarga) Maria Filomena Mónica...
Ó Amigo, leia, leia, que é lindíssimo...
É tocante e profundo, na sua singeleza.
E ela escreve tão bem...
Não, qual amarga, é 'imperial', como alguém desdenhosamente a apelidou e eu acho belíssima, a designação.
Sabe que me confunde perceber o quanto os fervorosos crentes receiam a morte?
Pela palavra do Pai, deveriam estar ansiosos e felizes, pelo reencontro.
Mas não.
É como se, no fundo, não acreditassem verdadeiramente no que dizem viver e acreditar...
Fico desolada.
Eu, que atravesso a vida em dúvida, sinto-me bem mais serena...
O pior é o sofrimento.
É esse limbo que me atormenta.
A morte é um sono sem sonhos.
O que é uma bênção.
Margarida,
Podendo,sapatos e malas quem não gosta de os coleccionar?
A doença, a eutanásia e a morte, assuntos que merecem reflexão e discussão, fiquei com curiosidade de ler o livro.
xx
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