03/07/11

meninas e moças

Não que siga estes romances, mas a fartura imagética que nos invade o olhar, dos quiosques às mesas das salas de espera, das bancadas dos spas aos desperdícios amontoados para recolha tardia, torna inevitável 'saber-se' alguma coisa a propósito. A espuma dos factos, claro, porque a realidade sabe-a quem a vive, o resto é especulativo e sintoma de imaginação mais ou menos fértil.
Baseamos as crenças e os supores no que nós mesmos já experimentámos, em enredos cinematográficos e na leitura juvenil de romances delicodoces, que preenchiam tardes longas de preguiça acalentada.
Diga-se o que se disser em tempos de friezas e racionalismos, sempre houve o sonho do príncipe maravilhoso, do seu estado de absoluto comprometimento e total entrega, da sua paixão (in)controlada, do frisson  de se ser 'a escolhida', 'a única', 'a especial'. E dele ser o melhor dos seres do seu género, cheio de virtudes e isento de falhas, à excepção de um certo domínio autoritário, que secretamente se deseja e admira. Básico. Tanto, que escondemos estes 'desejos' e debatemo-nos entre o sentido da igualdade e a libertação justa de preconceitos caducos e uma certa nostalgia de sermos 'levadas', algo entre o conduzido e o decidido sem muita escolha. Coisa para divã de analista, por certo, mas sei que não sou a única a sentir e pensar assim. No fundo, um 'companheiro' é a continuidade da paternalidade, assim como nós somos, não poucas vezes, o esteio maternal que a eles tanto falta.
Todas as histórias a dois são romances a mais. Existem os passados, as sombras, os fantasmas, os rastos em forma de irregulares cicatrizes. 
Sobrepõe-se a mágoa da dúvida, a inefável tristeza de haver mácula em tão acalentado sonho, a inescapável  realidade das conversas sinceras que exumam mais do que deveriam.  
Quantas vezes sabermos é nefasto para vivermos...   

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